“Quanto Vale ou é Por Quilo?”: Perguntas ou Lamentação?

Por Fernando Kawabe

O filme Quanto Vale ou é Por Quilo? foi lançado com o objetivo de estremecer as estruturas sociais. Assim, como qualquer outra manifestação cultural, o cinema também representa um momento, uma opinião... e, portanto, tem o dever de colocar em xeque a situação em que o ser humano está imerso, levando à sociedade a discussão dos mais variados temas.

O diretor Sérgio Bianchi, seguindo uma linha parecida com Cronicamente Inviável (outro de seus filmes), tenta mais uma vez retratar a realidade social brasileira, evidenciando sua miséria, injustiça e desigualdade.

Com histórias independentes, mas interligadas no desenrolar da trama, o filme ainda apresenta flashes do passado, contando histórias da época escravagista brasileira. Tal recurso ajuda a ilustrar as semelhanças entre as relações humanas da época e as relações contemporâneas; entre a miséria, o sofrimento, a humilhação vividos pelos escravos e a miséria, o sofrimento, a humilhação vividos pela maioria da sociedade brasileira contemporânea.

Como “pano de fundo” para a história, Bianchi explora o tema do terceiro setor, assunto ainda pouco comentado, estudado e discutido. Trata-se de questão muito delicada, pois, em tese, este novo setor tem a função de suprimir algumas deficiências econômicas, sociais, culturais, etc que o Estado não tem alcançado.

No entanto, o diretor supracitado é um dos primeiros a questionar esta posição intocável que as ongs e instituições similares ocupam perante à sociedade. Traz à tona não só a discussão sobre as reais conseqüências e o verdadeiro papel que ocupam dentro do sistema sócio-econômico no qual se inserem, mas também, questões mais específicas deste emaranhado que já se estabeleceu. Ou seja, tenta mostrar como são as relações internas de trabalho, as reais intenções de muitos dos envolvidos, a eficácia do trabalho desenvolvido e o desalinhamento entre os objetivos propostos e os alcançados.

É nesse contexto que o filme se desenrola e se torna envolvente; coloca-nos diante de um mundo fantástico, fascinante, longínquo... coloca-nos de olhos abertos para o mundo de fato (real). Tenta, ao menos, tirar o terceiro setor do “Olimpo” sagrado e colocá-lo em um patamar de questionamento, alertando a sociedade para um tema digno de acompanhamento e monitoramento. Chama a atenção, sem generalizações, para que não se iluda cegamente com as boas intenções aparentes.

Uma história que oferece boa dose de realidade e, portanto, chocante. Não se está acostumado com a franqueza que Quanto Vale ou é Por Quilo? estabelece, mas sim, com uma relação apenas lúdica e alienante que o “modismo” do cinema propõe atualmente.
Assim, com uma trama interessante, recursos envolventes e um tema novo e extremamente polêmico, o filme merece elogios e uma (ou várias) análises minuciosas para que a sociedade possa acompanhar e contribuir com a transformação da sua própria realidade... com a transformação, a priori, do próprio ser humano.

Fernando Kawabe é economista e trabalhou na ong Alfabetização Solidária

Ficha Técnica
Quanto Vale ou é Por Quilo?
Direção: Sérgio Bianchi
Elenco: Ana Carbatti, Cláudia Mello, Herson Capri, Caco Ciocler, Ana Lúcia Torre, Sílvio Guindane, Myriam Pires, Lena Roque, Lázaro Ramos, Leona Cavalli, Umberto Magnani, Joana Fomm, Marcélia Cartaxo, Odelair Rodrigues, Ariclê Peres, Zezé Motta, Antônio Abujamra, Ênio Gonçalves, Calara Carvalho, Noemi Marinho,
Caio Blat, José Rubens Chachá
Nacionalidade: Brasil, 2005
Duração: 104 min
Gênero: Drama
Classificação: 14 anos

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Raquel Sá - 2004